Ontem participei do Grupo Especial do Circuito Brasileiro de Poker, organizado pelo Clube do Poker (do Christian Kruel e Raul Oliveira), e foi um jogo superdivertido, com direito a muitas risadas e muitos jogadores de qualidade para enfrentar, sendo 215 participantes no total.
Bom, comecei o jogo tranquilo, sem muitas dificuldades, numa mesa travada mas com alguns jogadores fracos. Consegui mexer alguns potes razoáveis em todas as rodadas, não passava nenhuma rodada sem colocar umas fichas no bolso e logo me encontrava com 6k fichas, com os blinds em 100/200. Achei que teria uma vida tranquila nesse torneio, mas a partir daÃ, as coisas começaram a complicar.
Em uma mão que joguei horrivelmente mal, fiquei com 800 fichas. Estava no BB com Jd4h, o flop vem [ 7s, Js, Jc ]. Tive a infeliz idéia de apostar ali, vi que meu adversário deu um raise significativo, maior que o pote, e eu resolvi pagar. Obviamente, levei uma cacetada daquelas, ele tinha QhJh e perdi pelo kicker. Com 800 fichas pra blinds 200/400, eu teria que dobrar urgentemente, ou melhor, triplicar, mas precisava me mexer. Recebi um AQ, fui all in e bati de frente com um QJ, uma mão totalmente dominada pra minha sorte. Consegui então respirar e pegar por volta de 3.8k fichas. Nessa hora fiz a minha primeira parada para “reflexão”, e vi que meu M se encontrava muito baixo, aproximadamente 6.
Um pouquinho de teoria: M é um dos “pontos de inflexão” (inflection points) citados por Dan Harrington e Bill Robertie em seu famoso livro “Harrington on Holdem”, volume 2. O “M” foi criado por Paul Magriel nos anos 80, e amplamente difundido por Harrington. Isso será tópico de um próximo post, mas simplificadamente ele mostra o número de rodadas que você ainda sobrevive em um torneio dado o número de fichas que você tem e o nÃvel dos blinds. Matematicamente ele é calculado como sendo o total de suas fichas dividido pelo somatório dos blinds. Ex: se você tem 3000 fichas e os blinds estão em 20/40, você tem um M = (3000/(40+20)) = 50. Se os blinds não subissem, e você somente pagasse os blinds (não entrando em nenhuma mão), duraria na mesa por 50 rodadas. Meu M se encontrava, portanto, em torno de 6, aproximamente, um valor baixo e perigoso, pois sabia que precisaria me mexer. Nessa posição, é melhor entrar de all-in do que tentar ver o flop, e partir pra cima do adversário.
Consegui ganhar mais algumas fichas, e cheguei a 9000 aproximadamente, quando faltavam uns 40 adversários, e eu estava preocupado para não ficar no bubble. Estava na mesma mesa que o Luciano “Maracujina”, colega do Orkut que joga muito bem, e ambos estávamos pra ficar por ali mesmo. Desci para 5000 fichas, meu M estava em 4, e ganhei um all-in com AA x KK, ficando com 12k e garantindo minha colocação in the money (tinham 30 lugares pagos). Novamente, estava com o M baixo (mas melhor do que antes), o average (média de fichas) em 18k, e eu precisando fazer mágica pra chegar na mesa final.
O mais engraçado de me manter vivo no torneio mas com o M sempre baixo, foi falar com o Kenji algumas vezes durante o torneio, e em todas elas eu dizia: “tá indo, mas meu stack tá baixo…”
Consegui jogar bem nessa pressão, manter as fichas, dobrar em cima de erros de adversários que estavam em situação pior que a minha e chegar na mesa final com 36k. DaÃ, batendo com adversários com 100k ou 150k fichas, qualquer posição era lucro. Cheguei a fazer 55k fichas quando os blinds estavam em 3000/6000 com ante de 100, tendo, pra variar, um M = 5. Com um A9 na mão, tentei roubar os blinds e peguei um KK na frente, com o adversário ainda fazendo uma QUADRA DE REIS, adversário esse que viria a ser o campeão do torneio.  Fim de jogo pra mim, me classifiquei em sétimo lugar. Resultado muito bom, principalmente porque de quatro torneios do Clube do Poker desde janeiro, disputei três e fiz final table em dois, sendo um vice e um sétimo lugar. Próximo torneio, me espere… ainda levo a taça esse ano!
Shuffle up and deal!
